Contos,Crônicas e Poemas de Ed.
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Textos

O Fusível da Sociedade
     José fora designado a atender um chamado técnico em um presídio na zona oeste do Rio. A sua experiência não o tranquilizava porque jamais teria pisado em solo cativo e mesmo assim não recusou a tarefa.
     Às 08h00min da manhã do dia seguinte ele estava na portaria da Casa de Detenção apresentando seus documentos e passando por uma vistoria. Seus equipamentos não seriam tão necessários, pois o diagnóstico do defeito apresentado na Central Telefônica do prédio era de simples atendimento. José fora acompanhado de dois policiais e ao passar pelo corredor de acesso as celas presenciou as mais mal-encaradas faces da Terra. Os prisioneiros reunidos próximos às grades insultavam os guardas e sobravam para o técnico, ameaças e chacotas. O trabalhador perdia um pouco da concentração e mesmo assim se limitava a caminhar aparentando tranquilidade e conseguira chegar ao local em que executaria o serviço. Era uma cabine localizada no final do corredor e ao entrar não se ouvia mais nenhuma palavra, pois o som das ventoinhas que refrigerava o rack da central abafava os desacatos. Iniciava-se o procedimento de reparo no equipamento e as mãos de José já não obedecia a sua vontade. O seu cérebro não tinha mais controle da situação e ao abrir o compartimento com sua chave de fenda, deixou-a escapar em direção ao circuito eletrônico situado no módulo de manutenção e causou uma pane elétrica em toda carceragem. Os guardas não sabiam o que fazer, pois todas as celas foram abertas automaticamente gerando um tumulto no presídio e uma perigosa ação dos detentos estava para acontecer. Mão Branca, o mais perigoso dos detidos, começou uma grande rebelião e liderou o grupo que se apossou das armas dos policiais e os agrediram covardemente. José estava assustado na cabine e foi recrutado por um bando de esfomeados prisioneiros que o espancava. Um filme passara na cabeça de José. As recordações de sua infância quando brincava de polícia e bandido. Lembrava-se dos conselhos de sua mãe e da fé em Deus. As imagens de um massacre sendo vistas na televisão poderia ser fatal para sua pobre esposa que vivia com uma saúde precária. O motim repercutia por todo o país e a mídia anunciava que havia reféns em posse de bandidos
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audaciosos. Uma réplica do Carandiru assustava a todos e criava-se uma expectativa de um novo massacre. As autoridades tratavam de acordar com os foras da lei uma maneira de haver uma trégua em troca de prêmios e melhores condições de tratamento aos condenados. Todos os penhores estavam ansiosos e José era o único que servia de cobaia para aqueles homens revoltados que insistiam em agredi-lo impiedosamente. O pobre homem estava todo lanhado, suas pernas não se moviam mais, seus braços aparentavam fraturas e o que se via era um ser quase mutilado pela perversidade do Sistema, o verdadeiro culpado. Que culpa teria José de apanhar tanto? De ser sovado por pessoas estranhas em pleno momento de labor? De ser humilhado perante o público? O trabalhador já não tinha mais esperança de sobreviver. O Secretário de Segurança através de uma entrevista coletiva dava satisfação à sociedade sobre a forma pacificadora de tentar a solução sem que houvesse danos ao patrimônio público e prometia a população que desta vez haveria sucesso no acordo que seria realizado com os criminosos.
      A negociação para a libertação dos reféns era lenta tal quais as informações que chegavam aos familiares de José e contradizia a velocidade da circulação do fato social patológico nas redes sociais. As imagens de José eram expostas na tela a todo instante e havia quem apostasse na sobrevivência do homem que acidentalmente gerou toda esta desordem.
      Entretanto, após horas de ajuste, Mão Branca decidiu se entregar e centenas de policiais de operações especiais invadiram a prisão e pacificamente colocaram de volta ao cárcere todos os prisioneiros. Foi solicitada uma ambulância para socorrer os feridos e o mais destacado das vítimas foi perseguido por um repórter de um grande jornal e indagou:
“ Eu só fui trocar um fusível.”
Ed Ramos
Enviado por Ed Ramos em 03/05/2018


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