Contos,Crônicas e Poemas de Ed.
Literatura, a arte que liga as pessoas o mais distante que elas estejam.
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Textos
O Coma
   Era uma tarde de domingo dos anos 70 e uma importante partida de futebol nas terras mexicanas deixava o povo brasileiro eufórico após o soar do apito final. O Brasil tornara-se tricampeão do mundo. O céu da cidade maravilhosa era recheado de balões coloridos e o clima tropical garantia o percurso das figuras aéreas que com o verde, o amarelo, o azul e o branco desfilavam entre as nuvens. Noventa milhões em ação comemoravam o feito da paixão nacional e parecia ter nascido a oitava arte do mundo.
  Uma laje desprotegida localizada na zona oeste e no subúrbio do Rio de janeiro, próximo ao Gericinó foi vilã de um acidente trágico com o torcedor que ao tentar empinar sua pipa canarinho para festejar a grande vitória brasileira caiu de uma altura de seis metros. Uma fatalidade que o deixou em coma por 44 anos.  Sua jovem esposa, uma enfermeira recém-formada foi fiel em acompanhá-lo durante dois anos, mas não suportou a revolução dos seus hormônios e se entregou a carne causando indignação à família, e durante mais algumas décadas o ser moribundo permanecia ausente e em um sono aparentemente profundo.
  Durante este tempo a evolução surpreendia o país com avanços tecnológicos e a autocracia dava lugar à democracia a ser o fim do despotismo. Uma explosão demográfica era assustadora e milhares de caras pintadas representavam a luta do povo, explorado pelo capitalismo.  Um impeachment representava a esperança dos brasileiros que acreditavam no partido que representava o labor. Trabalhadores foram eleitos para desempenharem papéis importantes no Congresso e estudantes tecnicistas se transformavam em doutores devido ao campus de Universidades serem distribuídos pelo país inteiro dando oportunidade à classe pobre. Concursos públicos quebravam um paradigma do passado e a economia ascendia cada vez mais. Surgia a globalização, impulsionada pelo salto da tecnologia, e as pessoas se integravam mundialmente. O mundo estava ficando aos pés do desenvolvimento e inúmeras novidades apareciam no mercado para facilitar a vida dos usuários. Shoppings Centers eram instalados em toda a cidade e o consumo dominava homens e mulheres determinados a usufruir das melhores vestimentas.
   Fernando, o paciente inconsciente, continuava recebendo visitas dos seus pais e do seu único filho. Ele ouvia preces não processadas pelo seu cérebro, porém acatadas por Deus que com sua onipotência determinava em segredo o dia em que aquele homem retornaria para o seu lar.
   Passaram-se quarenta e quatro anos e um movimento em seus dedos anunciava o despertar do perseverante sujeito oculto revelando para o mundo o grande milagre da ciência: “Homem acorda do coma após anos”. Sua pele estava envelhecida, porém seus sentidos não foram muito alterados, pois entendia da saudade que sentia dos seus familiares e ansiava pelo encontro dos seus, mesmo sabendo que não mais os reconheceriam.
   A cidade tinhas as mesmas cores do passado e a perspectiva da conquista do hexa juntava-se a volta tão desejada daquele pai de família. Fora preparada uma festa para a chegada do senhor de setenta anos de idade, que após um severo tratamento fisioterápico estava disposto a viver o mundo novo, totalmente modificado.
Júnior, seu filho, estava eufórico com a incumbência de ir buscá-lo e ao chegar ao centro de recuperação do hospital não se conteve de tanta emoção ao abraçar o seu pai com tanta robustez que os médicos tiveram que intervir para que não houvesse nenhum tipo de exagero físico-emocional em ambas as partes. Após alguns segundos de silêncio, um pequeno discurso era enunciado:
- Pai.
- Meu filho! Como está parecido comigo! É o meu espelho!
- Pai. Foi um verdadeiro milagre. Tenho tantas coisas pra te dizer.
- Meu filho. Onde está a sua mãe?
   O rapaz estava preparado para esta pergunta e mais que depressa respondeu:
- Ela não veio, mas todos estão ansiosos por sua chegada, o táxi está nos esperando.
   E o incólume homem com seus passos lentos se aproximava do transporte e admirando o veículo indagava:
- Que automóvel bárbaro! Parece uma nave espacial!
   Ele não tinha a noção do avanço automobilístico e ao olhar em volta, viu uma frota amarela de pequenas naves e ao ver o condutor falar no celular, sua cabeça começou a querer dar um nó. Seu filho então passou a narrar as modificações concretas do novo âmbito para que ele entendesse o quanto tempo ficara ausente da sociedade.
   A sua visão panorâmica iniciava-se pela praia do Flamengo que continuava intacta. Menores naves espaciais de outros modelos circulavam pelas ruas o deixando admirado pela beleza de seus designers. O Museu de Arte Moderna nunca lhe chamara a atenção e foi despercebido tal qual o aeroporto, mas ao chegar próximo ao Cais do Porto ficou abismado com a transformação que vira:
“Um cais revitalizado e uma perimetral demolida.”
Imaginou quanto dinheiro haveria sido gasto e o seu subconsciente o levou a lembrar de que era um comunista e preocupado com as palavras falou baixinho ao ouvido de Júnior:
- Filho. Dava pra fazer cinquenta hospitais e escolas.
O filho respondeu serenamente:
-Pai. Não precisa se preocupar com as palavras.
-Acabou a Ditadura e todos têm a livre liberdade de expressão.
O taxista esbravejou:
- Este país é uma m... Só tem ladrão na política.
- Podia juntar todos e jogar no mar.
   Houve-se a primeira gargalhada do velho Fernando e a certeza de que sua saúde estava bem, pois seu oxigênio era absorvido ainda mais pelos seus pulmões. E dava a continuidade àquele percurso que prometia mais surpresas. O início da Avenida Brasil, próxima a Rodoviária, era congestionado e uma tela no interior do carro era definida para serem transmitidas as condições de tráfego e os planos de escapada. Uma linha vermelha era uma opção mais confortável e evitou que o “mais novo morador” da cidade testemunhasse magnatas circulando seus magníficos modelos zero kilômetro entre os cracudos seres ignorados pela sociedade. Durante a rota de fuga, viu-se uma tenda enorme na margem do outro lado da baía que indicava o lugar dos prazeres dos flagelados moradores de Ramos. Chegando bem próximo a baixada fluminense, o motorista retornou ao acesso da Avenida Brasil e o passageiro iniciou uma contagem do número de passarelas instaladas ao longo da via.
   Enfim, uma hora se passou e na altura de Realengo, a viatura entrou em uma rua à direita.  Era uma via de sarjetas  pintadas de esperança e alegria. Inclinados postes de luz enfeitados por bandeirinhas e entrelaçados fios de gatos completavam a alegoria e fixada a um arco de metal, uma placa lhe chamara a atenção:
“Bem vindo a Comunidade do Latão”
Fernando pasmado questionou:
- Onde nós estamos? Que lugar é este? Quero ir para a minha casa!
Seu filho, constrangido com a decepção do pai, respondeu:
- Pai. É o nosso bairro. Ele virou uma comunidade enorme e tem até subprefeito.
- Que comunidade? Na minha época isto se chamava favela.
- Não pai, a população aumentou e aqui o crescimento urbano foi totalmente desorganizado.
-Tô vendo! Casas em cima de casas, vielas desalinhadas e aqueles barracos no terreno baldio parecem que estão marcando território!
- Calma pai. Quando chegarmos a nossa casa, o senhor irá descansar e aos poucos entenderá toda a situação.
   Dona Léa, uma senhora de noventa anos, estava sentada em sua cadeira de balanço fazendo emendas quando avistou o seu menino retirando-se do táxi que parara a sua porta e sua emoção quase não a deixou abraçá-lo. O sentimento de Fernando era de que a sua beleza era semelhante ao dia em que ele partiu e suas mãos perfumadas não perderam o encanto. Deus havia lhe prometido a ordem natural das coisas. Promessa cumprida à matriarca e um vasto agradecimento com suas mãos erguidas ao céu para agradecer a mais preciosa benção de sua vida. Ele não resistia e chorava demasiadamente no colo de sua mama sentindo a sensação de que a vida estava começando. Após momentos de alegria, uma simples pergunta:
- Cadê Angélica?
- Ela não mora mais aqui conosco.
   Fernando era um homem inteligente e nunca mais arriscara a tão perigosa pergunta.
   Visitas somavam-se aos curiosos e tiravam a paz daquele homem cansado que não via a hora de deitar numa rede e degustar da deliciosa sopa de macarrão de Dona Léa. De repente, uma deliciosa voz aguda entre tantos discursos sobre a perda do hexacampeonato lhe chamara atenção e ao olhar para baixo, viu uma menininha de três anos de idade dizendo:
-Vovô Fenando. Você é meu Vô?
   Aquilo era uma maravilhosa surpresa. Não imaginara que um dia poderia ter seu sangue circulando nas veias de tão bela criatura, uma menina de olhos verdes, cabelos negros e cacheados. Um temporão com um sorriso encantador e com andar de saltos flutuantes e apimentados. Ela estava ornamentada de uniforme da seleção brasileira e uma grande e poderosa amizade surgia naquele instante.
   A noite chegara e inúmeros dados tentavam confundir a sua memória e o sono breve estava por vir. A certeza do amanhecer era precisa e ao deitar-se recebeu três vozes adentrando em seu quarto que ordenadamente dizia:
- Bença vô.
- Bença pai.
- Deus te abençoe. Meu menino.
   Descobrira que os seus valores não se alteraram.
E dava continuidade à vida. O homem tentava se ajustar ao novo ambiente, à nova cultura formada. Parecia ser um animal selvagem tentando se adaptar ao seu próprio habitat. O seu dia a dia era preenchido por surpreendentes fatos vistos na tela fina ou na arriscada escapada pelas ruas do bairro. Um mundo catastrófico existia, era irreversível a situação da educação, da família, do meio ambiente. As pessoas não mais se respeitavam e cada fragmento urbano era liderado por monarcas do pó, patrocinados por poderosos líderes hipócritas que cometiam arbitrariedade com os pequenos e aniquilavam a expectativa do sonho. Bolsas eram distribuídas para a pobreza e a incentivava a avolumar-se. E como dizia o poeta: “O poder não quer saber do saber”.
   O velho cidadão estava indignado e somente a peraltice de Bia o fazia esquecer-se das iniquidades dos homens. O seu brincar contaminava a sua inspiração e a caneta e o papel transformava seus gestos em segredos escritos em forma de fábulas para que um dia ela pudesse saber a importância do amor incondicional.
   Um despertar em sua mente o levou a uma agência de um Banco Federal para coletar informações sobre uma poupança que há quase cinquenta anos ele havia depositado uma pequena quantia relativa ao ganho de um décimo terceiro salário. Era um belo montante que correu juros e correção monetária e fazia de Fernando um homem de situação financeira estável. Pensou em sair daquele local e infiltrar--se junto com a sua família em novo antro cultural, mas sabiamente refletiu que não poderia mudar uma nata situação. Guardou segredo de suas cifras e postou-se com suporte financeiro da família caso houvesse a necessidade.
   Em uma bela manhã, pássaros vindos da Serra do Gericinó ineditamente orquestravam-se em frente a sua janela em suave harmonia. O filho amado de Dona Léa levantou-se e ao entrar no quarto de sua mãe para cumprimentá-la com o seu doce pedido de benção a mirou em um sono derradeiro. Como um passarinho feliz ela realizava uma viagem ao céu para agradecer a Deus pela promessa cumprida de que jamais enterraria o seu filho e que a ordem natural das coisas é justamente o oposto. Ainda lhe restava a alegria da casa e Fernando repetia a Deus a petição de sua madre.
   A barbaridade voltando à tona e adentrando-se em sua casa através da TV fez com que ele ignorasse para sempre o principal canal aberto. O sábio homem entendia que o novo poder tinha parceria com os meios de comunicação. As imagens do mundo eram visionadas, falsos profetas espalhavam-se entre o povo e a mídia fazia questão de mostrar através das telonas que havia inconformidades no livro sagrado. Romances eram citados, mas não eram lidos. Poemas eram musicados, mas não eram lançados.  Liam-se apenas trabalhos feitos e gravavam-se apenas gritos. A cultura de massa enterrava a arte popular e quem teve a oportunidade de ler Machado e ouvir Elis poderia se considerar um ser aventurado.
   Em uma tarde de nuvens passageiras, Vô Fenando se despediu de Bia. A sapeca garota estava mudando para a casa nova que Junior e sua mulher haviam comprado após anos de luta. A privacidade do casal deveria ser respeitada e visitas constantes seriam feitas a Fernando para que ele não se sentisse só em sua morada. O tempo foi passando e os pedidos de benção foram diminuindo devido à distância da moradia de seu filho. A péssima aptidão à tecnologia não conseguia atingir o êxito para a boa comunicação entre a família. A solidão o incomodava e vinha acompanhada de estrondosos bailes funks e tiros perdidos de raspados fuzis das forças. A nova sociedade tinha perdido valores sustentáveis da família e em sua mente brotou o poema:

             Cidade Sitiada

Outrora havia retângulos de relva
Onde uma esfera a passear
Pelos pés das feras
Era uma rainha da selva

Ouvia-se o som do apito
E da pelota, o grito
Não se sentia a fobia
Percebia-se a calmaria

Havia Perdidos no Espaço
Uma lua de queijo
O namorar sem o beijo
E o maço de cigarros

Hodiernamente, eu vejo:
Os tetos sem gramas
O cortejo à grana
E o sitiar em decreto


   Em segredo absoluto, aos oitenta anos de idade, o velho poeta adquiriu em um lugar distante, no meio da mata atlântica, uma casinha branca de varanda. Escreveu uma carta de despedida para os seus e voltou para o “coma” para todos os dias ver o sol nascer.
Ed Ramos
Enviado por Ed Ramos em 29/03/2019
Alterado em 29/03/2019
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